sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O concreto ser em si mesmo.



       Seco concreto sustentado por suas duras colunas. Vigas apoiam uma convergência de água, areia, cimento e uma enferrujada estrutura do mais rígido ferro. Concreto que já fora composto por uma límpida e fluida água que esbanjava vida nos variados lugares pelos quais passou. Antiga areia marcada por alvas bases de sustento do tronco infantil que cravou com intensa emoção os dedos desses pés até afundá-los profundamente, ao ponto que se pudesse sentir a umidade e frieza das não muito densas partículas de calcário. 
       Concreto um dia fora maleável. Concreto que bailava ao reger das mais duras ferramentas, buscando adaptar-se a frieza a qual estava inserido. Concreto que hoje se limita à simples tentativas de apenas rachar-se. Minúsculas rachaduras que comprometem a si mesmo, a sua própria estrutura construída pelo rígido movimentar de duras ferramentas.
        Um império rígido habitado por falecidos sonhos imutáveis que vagueiam pelo interior de sua solitária construção. A água já não jorra mais, a umidade alcançada por alvos pés se limitaram às falhas tentativas de escutar o fluido do que outrora fora um vívido rio. 
      Ouvidos encostados em seus muros anseiam frequências audíveis de ao menos fragmentos da mais primitiva vida. Hoje não. Não se pôde permitir-se ser. As dúvidas preenchem o espaço da solidão que vagueia no recôndito do seu inverno vital. - Concreto! Gritou perante seu reflexo. -Concreto! Concreto que bate com força na suas falhas tentativas de se libertar das cadeias as quais em si mesmo construiu. Poços de frieza da mais enganadora escuridão.