Shoppings abarrotados de gente, feiras inacessíveis, carrinhos do supermercado transbordando com os mais diversos sabores, décimo terceiro esgotado, dívidas feitas no cartão de crédito. Sim, descrevo um típico cenário natalino. A economia brasileira deu um suspiro de alívio e o bolso do consumidor um ofegante grito de desespero. O sistema econômico, vilão da equidade social, vestiu roupas à caráter para uma das datas mais esperadas do ano. Não, não quero ser o politicamente correto, mas não quero ser o mais cego, ignorante ou, talvez, ingênuo a essa situação. Os princípios divergem das ações e as facetas do natal não se expressam apenas em sua prática de reunir os mais amigáveis e familiares para comemorar uma hipotética data religiosa. Por trás de toda felicidade, talvez, há uma tristeza colossal. Porém, a atenção é tão voltada para a festa em si que muitos passam desapercebidos. Assim, como todo final de ano, a facada de ausência de empatia será cruel. Pessoas com sentimentos de fracasso e perdas, terão que sorrir um riso tão amargo capaz de fazê-la negar o apetitoso banquete temático. O efeito do chá-de-sumiço chegará ao fim com o soar da campainha que trará embrulhado em uma caixa ostentante o rosto no qual a última memória que temos é a do natal passado. Agora, talvez, com alguns fio brancos, alguns quilogramas a mais ou menos, filhos, possivelmente, enormes, pra variar -sim, reconheceremos, também, que estamos ficando velhos. Outros, fadigados da hipocrisia, ligarão a tevê e assistirão alguma série ou filme e se deliciarão de plena solidão. Solidão real e palpável, digamos, distante da encoberta com sorrisos, piadinhas e perguntas clichês, tanto as que se referem a um relacionamento ou a vida profissional e que se tornaram piadas nas redes sociais. Eu juro. Juro que queria escrever um texto ao clima dessa linda união natalina, mas não consigo. O dia 25 representa o nascimento de um menino que sonhou e ansiou uma sociedade mergulhada em humildade. Que sonhou com o compartilhar do pão. Que sonhou com a união. Que defendeu um cenário socialista, mas se tornou ícone de consumo em suas ações, seja o nascimento, morte ou ressurreição. Mais uma vez, juro que queria tecer uma história de pura satisfação, mas não tenho estômago, nem pra glutonaria, nem pra falsos sorrisos e abraços.

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