sábado, 6 de fevereiro de 2016
Pangênese ou Geração espontânea do ódio?
Jovem homossexual é morto à pauladas numa escura viela de São Paulo. Mulher tem olhos perfurados por companheiro após desentendimento conjugal. Criança de 14 anos assassina colega de 10 à machadadas após a vítima se negar a entregar o celular. Tais atrocidades seriam dignas de um enredo cinematográfico agregador de um público fã de tramas de terror. No entanto, é real. Os protagonistas são concretos e vivenciam uma tragédia, talvez, incorrigível. A busca por socorro grita nos olhos de cada cidadão. Mas o ciclo é vicioso. Após um ligeiro esquecimento, novas histórias surgem e, nessa roda da fortuna, torcemos para não sermos os próximos. Nisso, pode-se querer a sentença imediata ou a proteção humana com seus argumentos existenciais, causando mais ódio nesse filme sem justiça. Mas, aliás, de onde vem o ódio? É ensinado? É hereditário? Segundo Immanuel Kant, em sua obra "Antropologia de um ponto de vista pragmático", as paixões são inclinações de seres humanos voltadas para outros seres humanos, se dirigindo a fins concordantes ou conflitantes; ou seja, relações que se expressam em amor ou ódio. No entanto, a crítica ao sentimento oposto ao afeto, aprisiona a paixão contrária ao ponto de condensá-la em rancor, que arde como fogo em cinzas, necessitando, apenas, de um corpo com um fácil potencial inflamável para consumir toda área de contato, ocorrendo, nesse caso, a explosão de toda a ira no qual todos nós estamos suscetíveis. Sendo o impulso por amor-próprio a excitabilidade para o divergir do direito de amor ao próximo um fator da inclinação ao ódio, pode-se dizer que, na insurgência de tal sentimento, vale-se uma possível analogia ao conceito de geração espontânea do âmbito biológico. O ódio nem sempre é plantado ou gerado por terceiros, mas inerente à humanidade que foge constantemente de regras tão lineares que favorece inclinações à paixões conflitantes. Entretanto, a hereditariedade- não somente biológica, mas social e cultural- abarca grupos descendentes de tal fuga. Quando o indivíduo não se põe a salvo dessa paixão e desejo de retaliação, gerações agregam valores de vingança acumulada na chama da pequena cinza de rancor controlada, pois o sangue ou honra de um ofendido, ainda não vingado, clamará sempre por vingança. Dessa forma, a busca pela paz se torna mais distante, no instante em que observações de Kant e as teorias de John Locke convergem para um mesmo centro, levantando fortes evidências vivenciadas por nós de que a corruptela humana se dá no recôndito de desejos selvagens e cruéis. Assim, é valido assemelhar a crueldade humana à gêmulas hereditárias que acumulam-se em um emaranhado de sentimentos ocultos, ou acreditar que o ódio nasce sem avisos em meio a uma extensa probabilidade de atuantes? Independentemente do desfecho, resta saber: de quem e do que queremos nos vingar?
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário