quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Uns olham os lírios
Pra falar a verdade, esses anciãos me deixam realmente aflito. Por que tanta tormenta vital? Já não bastava as reviravoltas e tapas da vida, agora a saúde vem tirar férias prolongadas ou dar adeus? No que parecia tangenciar o ócio eterno, encontra a tormenta. Não sair, não fazer esforço,repouso, preso. Isso para aumentar as probabilidades de vivermos mais. Aliás, durarmos mais, lutarmos mais e vivermos menos. Porque isso não é vida. Piora sempre com o radicalismo dos diagnosticados que levam ao extremo as orientações médicas e perecem já sem vida, incubados em seus quartos sem se quer dar uma ida ao parque, respirar fundo, sentir um exemplo de paz. E a culpa sempre cai sobre a vítima ao dizerem que não se cuidou. Não discordo da participação consciente em ações profiláticas como intrínseca a uma velhice sã. Mas abarcar toda a culpa e jogar sobre as costas de quem não aguenta já o próprio peso é mais cruel do que se pensa. O pior nisso é que muitos já estão acostumados. Nesse sistema similar as castas, mas encoberto, a culpa impetuosa vem com fúria: Por que não estudou? Por que não trabalhou mais? Com isso, acreditamos cegamente que a luta é equânime e que o fracasso está inerente a nós. Entretanto, os milhões de avôs e avós ou quem não recebeu essa dádiva, estão por aí, firmes. E é essa firmeza, esse vigor, esse não desertar, que me vigora e me rejuvenesce em esperança e sonhos, além de uma pungente atitude. É nesses velhinhos ousados que me inspiro. Enquanto jovens desistem de si mesmos jogados em seus quartos ou atolados em frente a tela empoeirada do computador, os vovôs estão caminhando, cantando, alguns amando como podem. Devemos reconhecer que nunca é tarde para sonhar, realizar. Há um tempo para tudo. Semana passada, um aluno da escola ao lado de casa suicidou. Encerrou ali seus sonhos, metas, planos. Dias depois, encontrei uma senhora caminhando pela praça com seu cachorrinho de idade avançada. E como é de costume iniciou uma conversa rápida cheia de brilho, renovação. Ao reparar a mochila em minhas costas, disse que ano que vem vai firmar nos estudos e que sempre sonhou em escrever um livro. Me encantei e desmanchei todos os eus. Me senti tão pequeno perante tamanha audácia e objetivo. Tanta experiência, vivência. Em sequência, me despedi. Cheguei em casa renovado e disposto a recomeçar e insistir em minhas metas. Aquele encontro foi como um sinete de confirmação dizendo: Vai! Hoje, percebi que não há muito para acreditarmos ou desistimos. Devemos sempre buscar o equilíbrio, não nos enganando ou nos iludindo anunciando falsas ações que nos elevará a glória. É sábio agir em silêncio e colher como uma orquestra de periquitos no despedir do sol no fim da tarde. Creio que não nos acostumarmos, como Mariana Colasanti já deixou bem claro, será fundamental e comburente à resiliência e persistência. Em caso de dúvida, alguns olharão os lírios do campo, mas eu, prometo, olharei o desejo gritante de viver dos audaciosos velhinhos.
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