sábado, 31 de outubro de 2015
Alto Paraíso
Lágrimas diuturnas partiam em direção à dureza telúrica. Pernas cruzadas. Lá está ela, sentada no chão de terra segurando um graveto seco que encontrara na beira do estreito córrego. Segurou-o firme e delimitou memórias vagas de sua imaginação: Olhos, sorriso, orelha. Mas o ódio e tristeza que sentia bradaram mais alto e o chocar das mãos contra o barro sujou-lhe a alvura da blusa da banda preferida - nostalgia pura da efêmera infância em que as máculas não se exaltavam no recôndito de sua alma. O desenho, já borrado, se desfez. As manchas nas vestes intensificaram junto aos seus elencados sentimentos de tédio, ódio e revolta. Que saudades dos amigos -virtuais, apenas. Que saudades dos elogios - frutos das edições demasiadas que lhe transformava no que queriam ver. Ela queria a metrópole, a fama, as curtidas. Seu pai queria sossego. A Fazenda Alto Paraíso na periferia da cidade de São Paulo sem rede de internet se fez o cenário de ócio ao pai, mas tormento à ingenuidade da adolescente menina imatura em relação ao que almejaria após anos da cobrada formação profissional.
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