domingo, 22 de novembro de 2015

As incertezas do amor




E o platônico martiriza o recôndito do inconsciente.
Seja por força ou silêncio, seja por uma pungente fé demasiada em algo incerto,
Seja por desalento em meio ao caos de dúvidas.
O amor é um mistério que pode ser visto com simplicidade.
Mas não é.
Recolhe os porquês e demais questionamentos e esconde em buracos negros.
Quando são descobertos, os comentários somem, as fotos desaparecem após a triste decisão de exclusão
A história idealizada em planos tão concretos, ou não, se desmoronam em barrancos sem alicerce com os rios salinos de lágrimas comumente  noturnas.
No âmago do coração dói, no âmago do quarto destrói as cartas,
Fotos, flores, as cores.
Tudo se faz cinza, e o cinza se faz em meio ao retrocesso um retorno ao primórdio.
Ligações surgem, amores surgem.
As incertezas gritam, mas o medo de expressar os porquês aparece mais uma vez: Iminência de um novo recomeço.
A roda dos amores é fiel e suscetível a todos.
No hipotético fim, devemos nos entregar por inteiro?
Devemos negar o clímax dos desejos e reconhecer que esse belo amor terá um fim? 
Viva como queira, mas não ignore a hipótese de uma quebra trágica nesse paraíso linear.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Embaraços

Os céus ela em pranto fitava
As lembranças dilacerantes emergiam
E com imensa dor lembrava
Que em momentos de dor os dois sorriam

Ai que agonia, que solidão 
Enquanto ela se despedaça 
Ele vê um relacionamento em vão
Sem asa, sem graça

Mas o coração da moça era frágil
Nem se quer suportou 
A indiferença do rapaz que ela tanto amou

Não te quero!
Gritou no meio da praça
O rapaz sem entender nem se quer notou
Que o amor da sua vida ali se encerrou

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Desespero alveolar


"Traga logo! Não me deixe falar de novo"- gritou um dos três rapagões em tom alterado. Na abrangente possibilidade das cordas atadas nos punhos do garoto e das foices do vento da neblina, quase congelante, endurecendo seu rosto descoberto serem seu tormento, o oferecido era o pior : uma cartela de Marlboro, faltando um cigarro. Este, estava nos lábios de Pedro Miguel. Os lábios que beijaram as raparigas, seguravam, agora, a morte. A sua vida estava em jogo. Por mais que tentasse relutar, mais pressão era exercida. Seguraram o nariz para interromper a inspiração pelas narinas, forçando o trago. O cigarro já estava acendido e a honra gritava mais que os alvéolos ansiosos por hematose. Pedro resistiu, sacudiu a cabeça e cuspiu o pito que se apagou após um ligeiro sapateado. "Essa foi de mais"- pensou o cabeça do grupo. -"Apaguem ele! Agora!". Pedro Miguel fechou os olhos e desfaleceu. Morreu. Mas morreu honrando a promessa que fizera à mãe, que no ano passado morreu por complicações geradas pelo câncer pulmonar, de que nunca fumaria cigarro algum. As células sudoríparas trabalharam a todo vapor naquela madrugada. Miguel acordou desesperado, mas tranquilo e sossegado. Lembrou que bastaria apenas dizer não aos que oferecessem a ele a morte.

O queixar do canário


Agora há pouco queimaram a floresta
Endureceram o barro
Parece que querem um lugar e a morada é esta
minha companheira esta grávida 
Aonde iremos? Onde ela botará a vida envolvida em casca?
Destruiram nosso ninho
Cantamos, gritamos, encenamos
Por parte deles não havia carinho
Demonstramos, como sabíamos, o desgosto por aquela ação
Eles bateram palmas
Como se não bastasse, me puseram naquela imunda cadeia
Reclamamos, claro, mas aplaudiram
Tentei uma melodia repetitiva
Entenderam como a minha marca
Gostaram, indicaram aos outros como arfimativa
Perseguiram meus irmãos
Espremeram-os em caixas minúsculas 
Levaram para longe
E exibiram como troféus
A minha dor foi entendida como dom
Os meus gritos como cânticos 
A saudade agonizante como saltos ligeiros de alegria
Roubaram a nossa morada
Roubaram a liberdade
Roubaram o meu sincero cântico 
Que nos cantos hoje vivo a chorar

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Uns olham os lírios



Pra falar a verdade, esses anciãos me deixam realmente aflito. Por que tanta tormenta vital? Já não bastava as reviravoltas e tapas da vida, agora a saúde vem tirar férias prolongadas ou dar adeus? No que parecia tangenciar o ócio eterno, encontra a tormenta. Não sair, não fazer esforço,repouso, preso. Isso para aumentar as probabilidades de vivermos mais. Aliás, durarmos mais, lutarmos mais e vivermos menos. Porque isso não é vida. Piora sempre com o radicalismo dos diagnosticados que levam ao extremo as orientações médicas e perecem já sem vida, incubados em seus quartos sem se quer dar uma ida ao parque, respirar fundo, sentir um exemplo de paz. E a culpa sempre cai sobre a vítima ao dizerem que não se cuidou. Não discordo da participação consciente em ações profiláticas como intrínseca a uma velhice sã. Mas abarcar toda a culpa e jogar sobre as costas de quem não aguenta já o próprio peso é mais cruel do que se pensa. O pior nisso é que muitos já estão acostumados. Nesse sistema similar as castas, mas encoberto, a culpa impetuosa vem com fúria: Por que não estudou? Por que não trabalhou mais? Com isso, acreditamos cegamente que a luta é equânime e que o fracasso está inerente a nós.  Entretanto, os milhões de avôs e avós ou quem não recebeu essa dádiva, estão por aí, firmes. E é essa firmeza, esse vigor, esse não desertar, que me vigora e me rejuvenesce em esperança e sonhos, além de uma pungente atitude. É nesses velhinhos ousados que me inspiro. Enquanto jovens desistem de si mesmos jogados em seus quartos ou atolados em frente a tela empoeirada do computador, os vovôs estão caminhando, cantando, alguns amando como podem. Devemos reconhecer que nunca é tarde para sonhar, realizar. Há um tempo para tudo. Semana passada, um aluno da escola ao lado de casa suicidou. Encerrou ali seus sonhos, metas, planos. Dias depois, encontrei uma senhora caminhando pela praça com seu cachorrinho de idade avançada. E como é de costume iniciou uma conversa rápida cheia de brilho, renovação. Ao reparar a mochila em minhas costas, disse que ano que vem vai firmar nos estudos e que sempre sonhou em escrever um livro. Me encantei e desmanchei todos os eus. Me senti tão pequeno perante tamanha audácia e objetivo. Tanta experiência, vivência. Em sequência, me despedi. Cheguei em casa renovado e disposto a recomeçar e insistir em minhas metas. Aquele encontro foi como um sinete de confirmação dizendo: Vai! Hoje, percebi que não há muito para acreditarmos ou desistimos. Devemos sempre buscar o equilíbrio, não nos enganando ou nos iludindo anunciando falsas ações que nos elevará a glória. É sábio agir em silêncio e colher como uma orquestra de periquitos no despedir do sol no fim da tarde. Creio que não nos acostumarmos, como Mariana Colasanti já deixou bem claro, será fundamental e comburente à resiliência e persistência. Em caso de dúvida, alguns olharão os  lírios do campo, mas eu, prometo, olharei o desejo gritante de viver dos audaciosos velhinhos.