terça-feira, 4 de agosto de 2015

REFLEXOS




Ele, que observava-se e, talvez, indagava a si mesmo, estava ali, em frente ao espelho plano que o refletia por completo. Eu fitava-o incessantemente. O acervo de ideias que passava na mente daquele garoto, estagnado perante o seu reflexo, era um mistério que me tirava o sossego.

Pupilas dilatas, lábios ressecados... sorriu.

Também lancei-lhe um sorriso sutil - daqueles, que omite um dos principais componentes da digestão mecânica. Entre nós fez-se silêncio; parece que ele havia saído do transe. Estava consciente. 

Nisso, aproveitei o momento e me questionei sobre contiguidade dessa ação tênue à uma patologia psíquica. -Não! a sanidade é mais longínqua dos iguais, disse ele, com convicção. De repente, percebi que este monólogo teria um iminente fim: A Narcisa Consanguínea gritava ao meu lado. Em seus lábios, um batom de cor flamejante e, os olhos, sangrentos de pura ira; em sua mão, algo análogo a um revólver, apontava para sua cabeça e matava as ondas, matava os cachos, -traços que não lhe enquadrava no estabelecido panorama social. Me afastei e adaptei-me em outro ambiente. Era melhor e mais que necessário para o meu prolongamento vital.


Nenhum comentário:

Postar um comentário