Shoppings abarrotados de gente, feiras inacessíveis, carrinhos do supermercado transbordando com os mais diversos sabores, décimo terceiro esgotado, dívidas feitas no cartão de crédito. Sim, descrevo um típico cenário natalino. A economia brasileira deu um suspiro de alívio e o bolso do consumidor um ofegante grito de desespero. O sistema econômico, vilão da equidade social, vestiu roupas à caráter para uma das datas mais esperadas do ano. Não, não quero ser o politicamente correto, mas não quero ser o mais cego, ignorante ou, talvez, ingênuo a essa situação. Os princípios divergem das ações e as facetas do natal não se expressam apenas em sua prática de reunir os mais amigáveis e familiares para comemorar uma hipotética data religiosa. Por trás de toda felicidade, talvez, há uma tristeza colossal. Porém, a atenção é tão voltada para a festa em si que muitos passam desapercebidos. Assim, como todo final de ano, a facada de ausência de empatia será cruel. Pessoas com sentimentos de fracasso e perdas, terão que sorrir um riso tão amargo capaz de fazê-la negar o apetitoso banquete temático. O efeito do chá-de-sumiço chegará ao fim com o soar da campainha que trará embrulhado em uma caixa ostentante o rosto no qual a última memória que temos é a do natal passado. Agora, talvez, com alguns fio brancos, alguns quilogramas a mais ou menos, filhos, possivelmente, enormes, pra variar -sim, reconheceremos, também, que estamos ficando velhos. Outros, fadigados da hipocrisia, ligarão a tevê e assistirão alguma série ou filme e se deliciarão de plena solidão. Solidão real e palpável, digamos, distante da encoberta com sorrisos, piadinhas e perguntas clichês, tanto as que se referem a um relacionamento ou a vida profissional e que se tornaram piadas nas redes sociais. Eu juro. Juro que queria escrever um texto ao clima dessa linda união natalina, mas não consigo. O dia 25 representa o nascimento de um menino que sonhou e ansiou uma sociedade mergulhada em humildade. Que sonhou com o compartilhar do pão. Que sonhou com a união. Que defendeu um cenário socialista, mas se tornou ícone de consumo em suas ações, seja o nascimento, morte ou ressurreição. Mais uma vez, juro que queria tecer uma história de pura satisfação, mas não tenho estômago, nem pra glutonaria, nem pra falsos sorrisos e abraços.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
A majestade do Silêncio
Com toda certeza uma resposta de reprovação é como um balde de água fria em toda esperança. Uns aceitam, outros relutam e insistem - em vão, quando o não é ditador. Nem sempre existirá porquês, ou não deverão ser ditos. Apenas uma abrupta negação basta aos fadigados de buscar respostas. Nisso, o silêncio ganha preferencial. Acabamos gostando das falsas esperanças geradas pelas lacunas de possibilidade. O silêncio nos faz sonhar, idealizar, sorrir ou chorar, nos abre o peito as construções nem sempre possíveis, mas passíveis de serem uma hipotética solução, um oásis em meio ao escaldante deserto de medo, talvez. Nas magnitudes do silêncio se revela a paz. O ser humano busca essa paz e, negar a exuberância desse ato, pode ser fatal. O amor inicia no silêncio do olhar, mas, também, termina na duração do silêncio. No swing do jazz, a pausa, o silêncio, interfere no andamento harmônico. Na beleza do canto de aves silvestres, se não houvesse o silêncio, o belo canto seria atordoante. Em tudo o silêncio demostra o prazer da ausência de certas frequências. É nesse silêncio que buscamos nos estabilizar. Vivemos buscando respostas, mas o silêncio ecoa com toda majestade de sua abrangência de probabilidades. Torço para que possamos, um dia, reconhecer a importância das pausas -nem que sejam de curta duração. Que possamos construir e também desmontar ideais e sonhos quando recebermos o silêncio como resposta. Em todo caso, prefira um difundido e misterioso silêncio do que um não ditador de mágoa e muita dor.
Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se revela a mim. -Albert Einstein
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Voz de uma primavera
De uma forma inenarrável aquele olhar me conquistou e, sem anunciar, seu sorriso seria a droga mais viciante que tive o prazer de me viciar. O ardente beijo foi como o primeiro trago e eu mal sabia que a depedência seria iminente. O segundo, ratificou minha fragilidade perante aquele empoderado ser. Viciei. E como um dependente passivo as ações daquela droga, me entreguei sem relutar. Sem questionar. Por mais que tentasse lutar, meu desejo me impedia de abandonar o prazer. Pode ter sido inocência. Pode ter sido imprudência. Mas me entreguei. Era jovem. Tinha muito para viver. Minhas preocupações se limitavam em aproveitar o momento,o presente, a juventude, a primavera que eclodia em meus sentimentos e em meus desejos ofegantes e libidinosos. Tive abstinência de algo mais profundo. Queria mergulhar naquela nicotina hormonal. Erógena. No entanto, meu objeto-vício exigia que eu me entregasse por inteiro: sem relutar, me entreguei. Após isso, como um vento passageiro, me vi sozinho naquele quarto. Meus desejos se transformaram em medo seguido de angústia e dor. Após meses de silêncio, recebi uma carta. Não, não era ele. Alguns diziam diagnóstico, eu dizia sentença. Os olhares, promíscua. Meu coração, culpa e dor. Naquela véspera de natal, após a fraqueza que senti, descobri que era soropositivo. A prova de confiança custou a minha liberdade amorosa. Criou em mim estereótipos. Me pôs em uma cadeia cruel que me afasta dia após dia, no qual meus companheiros se resumem em coquetéis. Com eles, brindo minha falha. Mas anuncio a atenção aos que renegam a prudência em prol de um falso pedido de amor.
-Uma voz. Um jovem.
Marília's
Com um sufocante choro preso na alma, aguardava o momento de chegar a casa, fechar a porta do quarto e se entregar aos silêncios e soluços. Naquela Sexta-Feira, Marília se sentiu assim. Aquele tapa doeu na alma. Como doeu.Desmanchou seus alicerces, sacudiu seus sonhos como uma caixa de sorteio: o bilhete escolhido foi o desespero acompanhado de lágrimas. Muitas lágrimas. Agarrou ao traveseiro e o abraçou como se fosse único em quem podia confiar. Ninguém sabia e ela preferia não contar. "É frescura. É crime. Vai passar."A guerra psicológica a atordoava e, com isso, mais força ela impunha sobre o envolto de espumas impotente -igual a ela. O amassou, socou, apertou. Queria transferir a humilhação para o encosto do cenário da guerra. Em tanta tormenta, adormeceu de repente. Levantou assustada almejando ser um sonho, mas a pungente lembrança desmotivou as esperanças. Reviveu a cena: Fabiano perguntou com quem ela falava ao telefone. Ela, com ingenuidade, disse que falava com o amigo sobre o trabalho da faculdade. Foi o bastante. Fabiano a levou para o carro. E impôs sobre ela um almejado respeito e submissão à base de tapas. Todas tentativas de relutar seriam em vão. Ela já sabia, não era a primeira vez. Ficou em silêncio e esperou o tempo reconstruir a barragem que seguraria toda a ira do seu companheiro. Cessou. Ela saiu do carro às pressas e se refugiou no seu fiel porto seguro. Onde, agora, está a chorar. Mas são lágrimas menos densas. Já está se conformando. Marília sempre foi julgada pelas amigas:" fica com esse monstro porque quer". Mal sabiam que Marília não tinha mais forças pra reagir. Ela preferia as agressões temporárias do que uma ira súbita de Fabiano após saber de uma hipotética denúncia na delegacia da mulher. Marília não tem para aonde ir. Não tem com quem ficar. Assim ela vai levando: abraços hipócritas, elogios supericiais, bagagem de ira.
Assinar:
Comentários (Atom)



