terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Marília's




Com um sufocante choro preso na alma, aguardava o momento de chegar a casa, fechar a porta do quarto e se entregar aos silêncios e soluços. Naquela Sexta-Feira, Marília se sentiu assim. Aquele tapa doeu na alma. Como doeu.Desmanchou seus alicerces, sacudiu seus sonhos como uma caixa de sorteio: o bilhete escolhido foi o desespero acompanhado de lágrimas. Muitas lágrimas. Agarrou ao traveseiro e o abraçou como se fosse único em quem podia confiar. Ninguém sabia e ela preferia não contar. "É frescura. É crime. Vai passar."A guerra psicológica a atordoava e, com isso, mais força ela impunha sobre o envolto de espumas impotente -igual a ela. O amassou, socou, apertou. Queria transferir a humilhação para o encosto do cenário da guerra. Em tanta tormenta, adormeceu de repente. Levantou assustada almejando ser um sonho, mas a pungente lembrança desmotivou as esperanças. Reviveu a cena: Fabiano perguntou com quem ela falava ao telefone. Ela, com ingenuidade, disse que falava com o amigo sobre o trabalho da faculdade. Foi o bastante. Fabiano a levou para o carro. E impôs sobre ela um almejado respeito e submissão à base de tapas. Todas tentativas de relutar seriam em vão. Ela já sabia, não era a primeira vez. Ficou em silêncio e esperou o tempo reconstruir a barragem que seguraria toda a ira do seu companheiro. Cessou. Ela saiu do carro às pressas e se refugiou no seu fiel porto seguro. Onde, agora, está a chorar. Mas são lágrimas menos densas. Já está se conformando. Marília sempre foi julgada pelas amigas:" fica com esse monstro porque quer". Mal sabiam que Marília não tinha mais forças pra reagir. Ela preferia as agressões temporárias do que uma ira súbita de Fabiano após saber de uma hipotética denúncia na delegacia da mulher. Marília não tem para aonde ir. Não tem com quem ficar. Assim ela vai levando: abraços hipócritas, elogios supericiais, bagagem de ira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário