sábado, 31 de outubro de 2015

Alto Paraíso



Lágrimas diuturnas partiam em direção à dureza telúrica. Pernas cruzadas. Lá está ela, sentada no chão de terra segurando um graveto seco que encontrara na beira do estreito córrego. Segurou-o firme e delimitou memórias vagas de sua imaginação: Olhos, sorriso, orelha. Mas o ódio e tristeza que sentia bradaram mais alto e o chocar das mãos contra o barro sujou-lhe a alvura da blusa da banda preferida - nostalgia pura da efêmera infância em que as máculas não se exaltavam no recôndito de sua alma. O desenho, já borrado, se desfez. As manchas nas vestes intensificaram junto aos seus elencados sentimentos de tédio, ódio e revolta. Que saudades dos amigos -virtuais, apenas. Que saudades dos elogios - frutos das edições demasiadas que lhe transformava no que queriam ver. Ela queria a metrópole, a fama, as curtidas. Seu pai queria sossego. A Fazenda Alto Paraíso na periferia da cidade de São Paulo sem rede de internet se fez o cenário de ócio ao pai, mas tormento à ingenuidade da adolescente menina imatura em relação ao que almejaria após anos da cobrada formação profissional.

domingo, 18 de outubro de 2015

A GRANDE ALDEIA

        

        Uma multidão andando de cabeças curvadas. Em períodos bélicos tal ação seria de entrega e desistência ao inimigo. Mas, nesse caso, o foco não está nas miras dos canhões e sim nas telas dos "smartphones". Essa ilustração é perceptível nos século XXI; crianças e jovens -comumente imaturos- adetram em um universo tecnológico crescente sem terem a certeza do que os esperam, podendo  colocar em risco seu futuro.
        Santos Dumont conheceu o perigo do advento tecnológico em meio a uma geração despreparada: seu sonho, 14-bis, tornaria-se um pesadelo e artifício de destruição na Grande Guerra - resultado da inconsciência no uso da tecnologia.  Na "Geração Z" o despreparo se intensifica com a ausência da participação parental, escolar e pela ilusão do anonimato nas redes sociais viabilizando práticas ilegais, imorais e desumanas como o cyberbullying praticado até contra crianças- a cantora Melody tem sido um exemplo ao ser criticada pela forma de cantar e de se vertir. Tais críticas podem se refletir em transtornos psíquicos na fase adulta, de acordo com pesquisas internacionais sobre o bullying.
        Em controvérsia, é válido enaltecer a parcela da população que busca caminhos promissores em meio a tantas mezelas sociais. Segundo o filósofo Marshal Mcluhan, em sua obra "A Galáxia de Gutenberg" surgiria uma geração retribalizada através da tecnologia, transformando a sociedade em uma grande aldeia onde todos estariam interligados. Tal ideologia é notada nos relacionamentos virtuais que mantêm vinculos mesmo a distância, além de facilitarem o acesso dos jovens ao conhecimento através de hipertextos e debates virtuais.
        Visto isso, cabe, portanto preparar os jovens para esse bombardeio tecnológico. É necessário que as escolas se adaptem à essa geração com reformas no ensino ao articularem as formas triviais de passar o conteúdo à tecnologia, buscando ampliar o conteúdo didático através de vídeos e documentários. É preciso que o Estado invista em cursos de informática para os profissionais da educação para que não sejam vistos com obsolescência perante a visão subjetiva dos alunos. Junto a isso, a assessoria parental é fundamental para orientar a criança desde a tenra idade para reconhecer, aceitar e respeitar gerações passadas. Assim, será possível vivenciar vinculos saudáveis nessa imensa aldeia global.

sábado, 17 de outubro de 2015

Com que rosto ela virá?

   
         Sempre que nos remetemos a algo dito tóxico, optamos pela atenção e distância. No entanto, quando um radical consegue amenizar a seriedade por detrás da semântica, o veneno pode estar à mesa. Legumes, verduras, frutas; a lista de contaminação é vasta, os agrotóxicos estão por toda a parte e seus efeitos vêm se mostrando cada vez mais silenciosos e fatais.
        Durante o ano de 1960, uma revolução marcaria o sistema de produção agrícola. A demanda crescia a uma velocidade assombrosa dificultando o seu suprimento. Desse modo, surge através de uma política governamental, a Revolução Verde que com sua produção em massa, para se manter, necessitava da participação de insumos químicos. Todavia, perdas eram comuns, mas não aceitáveis. A ganância fez-se protagonista aliada ao uso excessivo de agrotóxicos aumentando o nível de mortalidade e pior qualidade de vida.
        Tal consequência não tem se mostrado bastante para a diminuição desse uso excessivo. Nos últimos dez anos os agrotóxicos tiveram um crescimento de duzentos por cento (200%) no mercado nacional brasileiro. Nesse período, de acordo com o Ministério da Saúde, o número de intoxicados chegou a quase noventa mil e, de mortes, mil e setecentos casos nos anos de 2010 a 2011.
        Ademais, o meio ambiente não tem sido beneficiado quando articulado a ignorância de alguns agricultores que descartam as embalagens de forma irregular, poluindo rios, causando intoxicações acumulativas em seres vivos e comprometendo a polinização entomófila com a morte de insetos -escassez de alimentos. Nisso, percebe nitidamente os malefícios intrínsecos a essa demasia. Mortes têm sido o lema dos agrotóxicos e o rosto que tem sido utilizado para isso é o que temos acreditado ser bom e saudável desde a infância.
        Sendo assim, o controle é necessário. É preciso que as redes supermercadista trabalhem com vistoria de qualidade no que tange o teor de agrotóxicos nos alimentos. É preciso intensificar a promoção preventiva de saúde para moradores das regiões próximas, além de monitoramento do uso do insumo químico. Assim, com o uso comedido, será possível vincular a saúde das safras à saúde humana e ambiental.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Em busca do protagonismo

   

        "O comprimido deve ser ingerido a cada cinco horas". É trivial vermos tal orientação em alguns medicamentos que buscam sanar enfermidades de forma iminente. Doenças que já mataram milhões de indígenas no período das grandes navegações encontram seu tratamento,  hoje, em vacinas ou em pequenas cápsulas, frutos do advento da indústria farmacêutica. No entanto, por trás do avanço tecnológico a par da promoção à saúde, esconde-se o interesse monetário das indústrias, comprometendo a ética da medicação.
        Em primeiro plano, é notório que medicamentos industriais ou manipulados venham acompanhados de praticidade e bons resultados na recuperação da saúde. Entretanto, ao serem articulados a artifícios publicitários de venda e na demasia de farmácias vistas a cada esquina, tem-se atribuido o papel de coadjuvante à promoção da saúde.
        Ademais, um caso recente e visível de interesse em lucros se mostrou notório: o vírus Ebola, que assola por décadas a África, tem tido ênfase na mídia. Porém, o lugar de destaque foi alcançado apenas quando houve contaminação em países considerados grandes potências, originando em alguns meses vacinas para o combate do agente patológico. Segundo Margareth Chan, diretora geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma indústria com fins lucrativos jamais investirá em produtos para mercados que não podem pagar.
        Diante disso, a ética na disseminação da saúde se mostra nitidamente comprometida. Convém, então, surgir políticas mais rígidas de controle para aquisição de medicamentos, sendo estes em prol da recuperação e tratamento eficaz de pacientes e não apenas fontes de lucro. É necessário que às universidades trabalhem em uma melhor formação na área da saúde para que estes profissionais não venham ser corrompidos por ganância. Assim, poderemos validar um papel plausível da indústria farmacêutica aliada ao seu primordial dever como promotora de saúde.
     

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Patrimônio público: responsabilidade de todos

   
          Na Pré-história, com ausência da ciência escrita, a representação de figuras em rochas ou em interiores de cavernas era uma das formas de comunicação da época. Hoje, tal artifício de manifestação comunicativa tem-se resultado em ações que transformam esse canal em mera ferramenta de mácula através de pichações articuladas a errôneos ideais revolutivos que induzem pessoas a depredarem o patrimônio público sem a consciência de que serão elas mesmas responsáveis -junto a sociedade- pela reparação, através de impostos.
        Primeiramente, vê-se que há um conceito de destruição vinculado as manifestações de caráter reformista ou revolutivo, em especial. A coroa francesa queria manifestações ordeiras, mas a Revolução manifestou-se de outra forma -destruição da Prisão da Bastilha, por exemplo. Isso cria nos ativistas uma imprescindível necessidade de violência para obtenção de mudanças refletindo em grupos como Black Bloc's :céticos ao movimento pacífico.
        Diante desse cenário, prejuízos emergem uma vez que o direito social ao lazer  e educação, como praças e escolas, tornam-se inacessíveis ao lazer familiar e à educação da criança, no qual esta busca preencher o momento de ócio com a internet, ficando tênue ao sedentarismo e desenvolvendo doenças, como obesidade, ou se tornando suscetível a crimes virtuais.
        Ademais, a depredação do patrimônio público interfere diretamente na economia do Estado, uma vez que a violência diminui o fluxo turístico e em consequência, a receita, gerando desemprego e aumento da criminalidade. Nisso, nota-se que a importância pela preservação do patrimônio público não se limita a estética, mas considera o contexto aderido a ele. 
         Em vista disso, surge a importância da população, ao requerer seus direitos, agir com consciência ao saber que o dinheiro utilizado na recontrução de escolas, por exemplo, poderia ser utilizado para aperfeiçoamento das existentes. Aos jovens que optam pela pichação e depredação, cabe, por parte do poder legislativo e executivo formular e impor punições mais abrangente não se limitando a três meses de prisão, mas cobrar reparos e conserto do degradado. Ao governo municipal cabe promover festivais com temáticas de "mostre seu talento à comunidade" para que, jovens, após construírem suas obras artísticas, saibam reconhecer o valor da produção. Dessa forma, ao preservarmos nossos patrimônios, poderemos abrir os braços aos benefícios.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Desperdício, negligência, fome

        Retratos de crianças desnutridas, apelos veiculados pela mídia, mãos estendidas pelas calçadas dos centros urbanos: a fome é notória e o conivente contribuidor para o agravamento desse quadro tem sido o deperdício de alimentos. Em vista disso, surge a necessidade de um combate urgente contra o desperdiçamento, seja este em grande massa pelas redes supermecadistas ou em pequenas quantidades descartadas pelos consumidores após um dito saciamento.
         O levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostra que, no mundo, mais de um bilhão de toneladas de alimentos são descartados em um ano. Enquanto, no Brasil, 36 milhões de cidadãos passam fome - contraste que inviabiliza o vivênciar do direito social de acesso à alimentação.
        Além disso, a controvérsia se acentua com a negligência da participação dos órgãos empresariais -seja no ramo das indústria, agricultura ou de revenda- que, baseados em uma política econômica, negam-se doar alimentos avariados alegando que  isso induzirá os trabalhadores a praticarem danos aos produtos, na espera de recebê-los por invalidez de compra. Nisso, o desperdício ganha mais força e o contraste com a fome nacional aumenta.
         No entanto, avaliar a situação com empatia tem se mostrado fundamental a solução. Em um exemplo digno, o grupo Mesas do Brasil, percorre feiras e centros de abastecimento recolhendo alimentos com defeitos estéticos -inviabilizados à compra - e distribuindo em orfanatos e creches frequentadas por crianças carentes. Tal ação gera comoção a grupos sociais que repensam o consumo demasiado e desnecessário optando pelo reaproveitamento do que outrora via-se lixo, levando o debate a uma iminente solução.
        Posto isso, cabe surgir políticas de controle ao desperdício. As mazelas por trabalhadores podem ser reduzidas pelos empresários ao formentarem campanhas benéficas a ambos, como premiação de cestas mensais, para empregados e famílias carentes, de acordo com a produtividade coletiva e queda de avaria. As escolas junto a mídia poderiam criar cartelas concientizadoras às crianças e jovens sobre a gravidade do desperdício, além de ensinar receitas de aproveitamento de alimentos -outrora descartados- aos adultos. Diminuindo os gastos com a produção demasiada, o lucro econômico poderá atenuar a cruel realidade dos retratos dito logo acima.